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Especial Opinião PC

Gaúcho and the Grassland e a história de Django

Ainda em desenvolvimento, o jogo da Epopeia Games me fez sentir a importância da representação brasileira nos games

Lançado em 2007, o filme da Pixar Ratatouille conta com uma das cenas que melhor sintetizam o sentimento de nostalgia. O crítico Anton Ego, ao visitar o restaurante Gusteau’s, recebe do chefe um prato de ratatouille. Comida simples, feita com legumes refogados, normalmente servida por camponeses.

Enquanto a escolha inesperada do “chefe” gera desconfiança no início, o crítico viaja no tempo ao dar a primeira garfada na mistura: o prato faz o duro crítico se lembrar da infância no interior, em uma cena emocionante e icônica.

Assim como Anton Ego, passei por uma viagem emocional similar recentemente, mas meu “prato” foi o jogo Gaúcho and the Grassland, servido em uma demonstração cedida pelo estúdio brasileiro Epopeia Games.

Enquanto Anton Ego derrubou seu garfo após a primeira mordida no guisado de legumes, eu acabei mergulhando em memórias enquanto coletava itens e explorava a relva verde do jogo com vibe de Stardew Valley. A viagem foi tão intensa que até me lembrou de um personagem que estava dormente na minha vida: Django.

Não estou falando do protagonista do filme homônimo de Quentin Tarantino, tampouco do software de programação: Django é o apelido do meu falecido padrinho, um ginete que viveu nas pampas do Rio Grande do Sul, domando cavalos e tocando gado, sempre com uma cuia de chimarrão ao seu alcance.

Enquanto a ponte entre um tropeiro que viveu no sul e o protagonista de um jogo baseado na cultura gaúcha é bem clara, a força emocional das minhas memórias foi tão implacável quanto o vento minuano em um dia frio.

A vida no campo em jogo

A demonstração de Gaúcho and the Grassland é simples, mas bastante efetiva. Disponível para quem fizer a compra antecipada do game, a prévia te coloca para viver como um gaúcho nos verdejantes campos do sul, apenas com um cavalo e um cão como seus parceiros.

Com um sistema de construção e coleta bastante fofo e funcional, o jogo estimula que você explore a região para construir seu rancho e montar um rebanho. Além disso, mistérios também rondam os pampas, que são abençoadas pela presença do Negrinho do Pastoreio.

Trailer Gaucho and the Grassland (PT/BR)

Assim como Stardew Valley e outros simuladores de fazendinha, Gaúcho and the Grassland é uma grande homenagem à vida no interior, recheado de simplicidade, com os prazeres de concluir tarefas e construir uma vida pacata. A diferença, como o nome já aponta, está no gaúcho: a obra da Epopeia Games é recheada de referências à cultura riograndense, desde a dublagem de qualidade até a presença de fauna e flora locais.

E essa localização é tão bem produzida que o jogo não apenas retrata a cultura gaúcha com carinho e precisão, mas é capaz de levar jogadores que cresceram na região para uma viagem recheada de memórias.

Um protagonista familiar

Assim como o protagonista de Gaúcho and the Grassland, meu padrinho Django, que morreu quando eu ainda era criança, não tinha uma backstory. Desde que me lembro, ele só estava lá: minha família morava no interior e o cavaleiro cuidava de uma fazenda próxima, o que gerou uma relação de amizade sólida, mas que não envolvia o passado.

Tal qual o protagonista da Epopeia Games, meu padrinho também não tinha nome: durante seu tempo de vida, eu jamais soube como ele era realmente chamado, e pouquíssima gente da região sabia: a única alcunha que lhe servia era Django, apelido inspirado no clássico personagem de faroeste dos anos 60.

Assim como o protagonista do game, Django contava apenas com dois companheiros de trabalho: o cavalo Pé de Pano e o cachorro Caçula.

Enquanto ele não carregava uma metralhadora em um caixão para vingar a esposa, sempre andava com uma cara amarrada e de chapéu, pronto para lutar contra os perigos dos pampas — ou compartilhar uma cuia de chimarrão. E antes de Jamie Foxx e Quentin Tarantino ensinarem ao mundo que o “d” de Django é mudo, isso já era lei no interior de Lagoa Vermelha, onde todo mundo chamava o tropeiro apenas de “Jango”.

Ele não tinha família, seus filhos moravam longe. Vivia sozinho e apenas trabalhava em seu rancho, assim como o simpático personagem de Gaúcho and the Grassland. E para deixar tudo ainda mais profundamente familiar, Django contava apenas com dois companheiros de trabalho, inseparáveis e sempre presentes: o cavalo Pé de Pano e o cachorro Caçula.

A vida dedicada ao campo

Apesar da cara de poucos amigos, Jango era um cara bem simpático e, como todo bom gaúcho, sempre visitava os vizinhos para contar causo e tomar chimarrão, o que eventualmente fez ele se tornar meu padrinho. No final do dia, quando voltava para seu rancho, tornava-se apenas uma silhueta escura de chapéu, com seu cavalo e cusco, sumindo no horizonte dos campos riograndenses.

Assim como o sistema de gameplay de Gaúcho and the Grassland, a vida de campeiro no interior é simples e recheada de pequenas vitórias diariamente, mas vem acompanhada de solidão. No caso de Jango, os amigos eram praticamente NPCs em uma vida single-player, dedicada ao campo e ao trabalho.

Django, um personagem esquecido do interior do Rio Grande do Sul. Arte: @zsbianca, feita para o Jornal dos Jogos

E quando o campo é retirado do campeiro, um pouco da vida também se esvai. Eu lembro até hoje da última vez que vi Django, em um asilo no interior do Rio Grande do Sul. Sem seu cavalo, seu cachorro e os pampas, ele ainda sobrevivia como um velho homem, disposto a sorrir, mas sem o brilho que o fazia proteger o gado e domar animais selvagens com maestria.

Em sua morte, Django ainda voltou para a terra que sempre lhe deu vida. Seguindo os ritos tradicionais do interior riograndense, o velho tropeiro foi enterrado em um cemitério de comunidade, na colina de uma lavoura, onde o vento minuano canta e o sol se esconde atrás das árvores. Descansou, sozinho, no solo que serviu de chão para suas últimas andanças como campeiro.

Uma faísca de lembrança

O filme Coco, de 2017, traz uma premissa interessante para a vida após a morte: uma alma só deixa de existir após a última pessoa viva se esquecer dela. Em um mundo com discos rígidos com petabytes, as memórias têm um peso importantíssimo, mas com tanta informação nos cercando diariamente, não é difícil acabar se esquecendo dos pequenos detalhes da vida.

Graças ao trabalho realizado pela Epopeia Games, sinto que a memória de Django, e de tantos outros campeiros esquecidos do interior, está encapsulada de uma forma bela e que vai perdurar com as novas gerações. Mais do que uma simples homenagem à cultura da região sul, Gaúcho and the Grassland chega a ser o retrato de uma realidade cada vez mais rara, mas que agora ganha vida em uma nova forma de arte, dinâmica e que conversa com um público cada vez mais conectado.

Comecei a jogar o game da Epopeia como um gaúcho desviado, que cresceu no interior riograndense, mas deixou as tradições de lado para viver em um mundo repleto de tecnologia. Agora, publico este texto vestindo bombacha, tomando um amargo chimarrão, acompanhado da doce lembrança de um personagem icônico da minha infância, que praticamente ganhou vida em um videogame feito no Brasil.

Com apenas uma demonstração, Gaúcho and the Grassland já mostra o poder e impacto de jogos feitos no Brasil, para brasileiros e SOBRE histórias brasileiras. Kratos que me perdoe, mas nem God of War conseguiu me entregar uma experiência assim.


Com lançamento previsto para 2023, Gaúcho and the Grassland pode ser comprado antecipadamente por R$ 30 na Nuuvem e também possui uma página na Steam.

Por Mateus Mognon

Jornalista formado na UFSC e criador do Jornal dos Jogos, veículo que reúne as principais notícias de games com curadoria e aquele "jeito moleque" de escrever.